ENDOCRINOLOGIA PEDIÁTRICA

Micropênis

O Que é Micropênis?

O micropênis é uma condição em que o pênis é estruturalmente normal, mas significativamente menor do que o esperado para a idade da criança. Ele é definido quando o comprimento estirado do pênis (SPL, do inglês Stretched Penile Length) está 2,5 desvios-padrão abaixo da média para a idade e etnia.

É importante ressaltar que o micropênis não é o mesmo que outras condições que podem fazer o pênis parecer pequeno, mas que na verdade têm tamanho normal. Essas outras condições são chamadas de “pênis não-aparente” ou “pênis inconspícuo” e incluem:

  • Pênis embutido (ou “enterrado”): O pênis tem tamanho normal, mas está escondido sob uma camada de gordura na região suprapúbica, algo comum em crianças com sobrepeso ou obesidade.
  • Pênis aprisionado/encarcerado: O pênis fica preso em tecidos cicatriciais, geralmente após uma cirurgia como a postectomia (circuncisão).
  • Pênis palmado/em teia: Uma dobra de pele anormal conecta o pênis ao escroto.
  • Pênis curvado (chordee): Uma curvatura pode fazer com que o pênis pareça menor.

A medida precisa do pênis é crucial para diferenciar essas condições do verdadeiro micropênis. Nós, pediatras, realizamos essa medida de forma padronizada, esticando o pênis e pressionando a gordura suprapúbica. Se o seu filho for diagnosticado, tenha certeza de que foi feita uma avaliação cuidadosa!

Por Que o Diagnóstico Precoce é Tão Importante?

O diagnóstico precoce do micropênis é fundamental por diversas razões:

  • Evita ansiedade e exames desnecessários: Um diagnóstico incorreto pode gerar muita preocupação para os pais e levar a investigações que não seriam necessárias. Com o diagnóstico correto, podemos agir de forma direcionada.
  • Aproveita a “minipuberdade”: Nos primeiros 6 meses de vida, especialmente entre o 1º e o 3º mês, ocorre um pico de atividade hormonal no bebê, semelhante a uma “minipuberdade”. Esse é um período crucial (e uma “janela de oportunidade” ideal) para a avaliação hormonal e para o início de certos tratamentos, pois o corpo do bebê está mais receptivo às intervenções.
  • Permite diversas opções de tratamento: Quanto antes o micropênis for diagnosticado, mais cedo podemos considerar as opções de tratamento, aumentando as chances de um bom resultado.
  • Ajuda a identificar a causa: O micropênis pode ser um sinal de alguma alteração hormonal ou genética subjacente. O diagnóstico precoce permite investigar a etiologia (causa) e tratar a raiz do problema, quando possível.

Como é o Tratamento do Micropênis?

O principal objetivo do tratamento do micropênis é aumentar o tamanho peniano para que o paciente tenha uma imagem corporal confortável, possa urinar em pé e tenha uma função sexual normal no futuro, além de elevar sua autoestima. É importante notar que “sucesso” não significa necessariamente atingir o comprimento médio da população adulta, mas sim um tamanho funcional e esteticamente aceitável para o indivíduo.

A abordagem terapêutica é individualizada e depende da causa do micropênis. No geral, o tratamento pode incluir:

1. Terapia Hormonal (Primeira Linha de Tratamento)

A terapia hormonal é geralmente a primeira linha de tratamento e é altamente recomendada na infância, pois a resposta do pênis aos hormônios é melhor nesse período. Isso se deve ao fato de que a expressão dos receptores androgênicos no pênis diminui na fase adulta.

  • Testosterona:
    • Geralmente, um ciclo de testosterona é administrado inicialmente para avaliar a resposta do pênis. Isso nos ajuda a entender se o pênis é sensível ao hormônio.
    • Pode ser administrada por injeção intramuscular (25 mg, uma vez por mês, por 3 meses, para bebês e lactentes; ou 100 mg/m², uma vez por mês, por 3 meses, para crianças maiores e adolescentes).
    • Também pode ser usada como creme ou gel tópico (pomada ou gel a 5%, 10 mg/dia, por 30 dias), com eficácia similar às injeções. Ao aplicar o creme, os cuidadores devem usar luvas de látex para evitar a absorção do hormônio pela própria pele e efeitos colaterais.
    • Os efeitos colaterais são mínimos, podendo incluir aceleração temporária do crescimento e da idade óssea, maior frequência de ereções e um discreto aumento da pilificação (pelos).
    • Uma boa resposta é geralmente considerada quando o comprimento do pênis dobra em relação ao tamanho inicial, ou quando há um aumento de 0,9 a 3,5 cm.
    • A falta de resposta pode indicar uma resistência aos andrógenos, e nesse caso, outras abordagens podem ser exploradas.
  • Di-hidrotestosterona (DHT) Tópica:
    • A DHT é uma forma mais ativa da testosterona e é especialmente eficaz em casos de insensibilidade parcial a andrógenos ou deficiência da enzima 5-alfa-redutase.
    • É aplicada como gel (2,5%) por 3 a 4 meses, com doses que variam conforme a idade.
    • Assim como com a testosterona tópica, os cuidadores devem usar luvas.
    • Os efeitos colaterais são geralmente leves, como irritações ou coceira na pele.
  • LH e FSH Recombinantes:
    • Esses hormônios são usados em casos específicos de hipogonadismo hipogonadotrófico congênito (uma condição onde o corpo não produz hormônios suficientes para estimular os testículos).
    • O objetivo é mimetizar a minipuberdade, promovendo o crescimento do pênis e dos testículos.
    • Embora promissores, ainda faltam estudos de longo prazo para avaliar a segurança e o tamanho final do pênis na idade adulta.
  • Inibidores da Aromatase:
    • São uma abordagem mais recente, ainda em estudo, para o tratamento de micropênis em adolescentes. Alguns estudos pilotos mostraram resultados promissores, mas mais pesquisas são necessárias para confirmar sua eficácia.

2. Tratamento Cirúrgico

A cirurgia é geralmente reservada para os casos mais extremos ou quando o tratamento hormonal não foi suficiente. Ela é uma opção para aqueles que não respondem à terapia hormonal ou que têm defeitos mais graves na formação do pênis.

  • As técnicas cirúrgicas envolvem a reconstrução do pênis usando tecidos de outras partes do corpo ou o uso de implantes.
  • É importante saber que, embora os resultados estéticos e funcionais tenham melhorado, as chances de complicação podem ser altas, mesmo com cirurgiões experientes, e a satisfação do paciente pode variar.
  • Essas cirurgias geralmente só podem ser realizadas na idade adulta.

Considerações Finais

Entendemos que receber o diagnóstico de micropênis para o seu filho pode ser um momento de grande apreensão. No entanto, queremos reafirmar que o diagnóstico preciso e o início precoce do tratamento são os pilares para um bom resultado. A maioria dos pacientes criados como meninos, mesmo com micropênis persistente, desenvolve identidades sexuais e funcionamento normais.

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